sábado, 13 de setembro de 2025

Tendências Pedagógicas E Seus Educadores: Ovide Decroly

 


   Ovide Decroly (1871–1932) foi um médico, psicólogo e pedagogo belga, cuja contribuição à educação é reconhecida até hoje por sua abordagem inovadora e humanista. Seu trabalho foi guiado por um princípio simples, mas profundamente transformador: a escola deve estar a serviço da vida. 

  Ele acreditava que a educação deveria ser construída a partir das necessidades reais das crianças, respeitando seus ritmos, interesses e capacidades. Seu lema era claro: “Educar para a vida e pela vida.”

   Decroly desenvolveu um método pedagógico baseado na observação da criança e no entendimento de suas necessidades vitais. Para ele, o processo de aprendizagem deveria partir da realidade concreta, e não de conteúdos abstratos. 

  Em vez de fragmentar o conhecimento em disciplinas isoladas, defendia a educação por meio de centros de interesse, integrando diferentes áreas do saber em torno de temas significativos para os alunos.

A Educação Baseada nas Necessidades Vitais

Decroly identificou três grandes necessidades vitais que, segundo ele, deveriam orientar o processo educativo:

  1. Necessidade de se alimentar

  2. Necessidade de se proteger contra perigos

  3. Necessidade de agir, comunicar-se e viver em sociedade

   Essas necessidades, segundo o pedagogo, estão presentes em todas as crianças e servem como ponto de partida para o aprendizado. Ao organizar o ensino em torno delas, a escola se conecta diretamente com o cotidiano e as experiências dos alunos, tornando a aprendizagem mais significativa e eficaz.

O Método Decroly

   O método criado por Ovide Decroly é pautado em três pilares fundamentais: observar, associar e expressar.

  • Observar: A criança é estimulada a observar o mundo ao seu redor, desenvolver a curiosidade e aprender pela descoberta.

  • Associar: A partir das observações, ela é levada a fazer conexões, relacionar ideias e construir conhecimento.

  • Expressar: Finalmente, a criança expressa o que aprendeu por meio da linguagem, da arte, do corpo e de outras formas de comunicação.

   Esse ciclo respeita o ritmo natural do aprendizado e estimula o desenvolvimento global do aluno — não apenas intelectual, mas também emocional, físico e social.

   Além disso, Decroly valorizava o trabalho em grupo, a autonomia e o respeito à individualidade. Para ele, cada criança é única, com seu próprio ritmo e estilo de aprendizagem. Por isso, a escola não deveria ser um lugar de uniformização, mas sim de valorização da diversidade.

Centros de Interesse

   Uma das contribuições mais marcantes de Decroly é o conceito de centros de interesse, que consiste em organizar o currículo em torno de temas que despertam o interesse das crianças. 

   Por exemplo, ao trabalhar o tema “a casa”, é possível explorar conteúdos de matemática (medidas, formas), ciências (materiais, plantas), linguagem (descrições, histórias) e artes (desenho, maquetes), tudo de forma integrada.

   Esse modelo rompe com a rigidez do ensino tradicional, que separa o conhecimento em disciplinas estanques e muitas vezes desconectadas da realidade do aluno. Para Decroly, o aprendizado deve fazer sentido e estar ligado à vida.

Legado e Influência

   Ovide Decroly deixou um legado profundo na pedagogia moderna. Suas ideias influenciaram movimentos educacionais em vários países e continuam presentes em abordagens contemporâneas, como a educação ativa, a pedagogia de projetos e as escolas construtivistas.

   No Brasil, sua influência chegou por meio de educadores como Anísio Teixeira e Lourenço Filho, que buscaram adaptar os princípios decrolyanos às realidades locais. 

  Muitas escolas ao redor do mundo ainda seguem seus princípios, especialmente aquelas voltadas à educação infantil e aos anos iniciais do ensino fundamental.

Conclusão

   A pedagogia de Ovide Decroly nos lembra que ensinar é, antes de tudo, compreender o ser humano em sua totalidade. Sua proposta de uma escola viva, integrada à realidade e centrada na criança é um convite à reflexão sobre o que realmente importa na educação. 

 Em tempos de rápidas transformações sociais e tecnológicas, seu pensamento continua atual, mostrando que educar é, essencialmente, preparar para a vida — com sentido, autonomia e humanidade.

   Espero que tenha gostado do nosso estudo de hoje. Abraços e até a próxima!😉


sábado, 6 de setembro de 2025

Tendências Pedagógicas E Seus Educadores: John Dewey


 

   John Dewey (1859–1952) foi um dos pensadores mais influentes do século XX, especialmente no campo da educação. Filósofo, psicólogo e educador norte-americano, Dewey é considerado o pai da educação progressiva — um movimento que transformou profundamente a maneira como se entende o ensino e a aprendizagem.

  Sua obra continua relevante até hoje, especialmente em debates sobre metodologias pedagógicas, o papel da escola na sociedade e a importância da experiência no processo educacional.

A Educação como Experiência

   Um dos pilares do pensamento de Dewey é a ideia de que a educação deve estar profundamente ligada à experiência. Para ele, aprender não é simplesmente absorver informações passivamente, mas sim um processo ativo de interação com o mundo. 

  Em sua obra mais conhecida, Democracia e Educação (1916), Dewey argumenta que a escola deve preparar os alunos para a vida em sociedade por meio de experiências significativas e práticas, e não apenas por meio da memorização de conteúdos.

 Dewey acreditava que o conhecimento não é algo que pode ser simplesmente transferido de um professor para um aluno. Ao contrário, ele via o processo educativo como uma reconstrução contínua da experiência. 

 Nesse sentido, o papel do professor é o de facilitador — alguém que guia, provoca e organiza situações de aprendizagem, promovendo a reflexão e o pensamento crítico.

Escola e Sociedade

   Outro ponto central na filosofia de Dewey é a relação entre educação e democracia. Ele acreditava que a escola deveria ser um reflexo da sociedade democrática que se quer construir. 

  Em outras palavras, o ambiente escolar deve cultivar valores como a cooperação, o respeito à diversidade, a liberdade de pensamento e o diálogo. Dewey via a educação como um meio para desenvolver cidadãos críticos e participativos, capazes de contribuir ativamente para a melhoria da sociedade.

  Isso se opõe ao modelo tradicional de ensino da época, que era centrado na autoridade do professor e na disciplina rígida. Para Dewey, esse tipo de educação não preparava os alunos para a vida real, pois os mantinha em um papel passivo, sem voz ou participação nas decisões do processo educativo.

Influência e Legado

   A influência de Dewey vai muito além dos Estados Unidos. Suas ideias foram adotadas e adaptadas em diversos países, especialmente na América Latina, onde pensadores como Anísio Teixeira e Paulo Freire se inspiraram em seus princípios para repensar a educação em contextos locais.

  A chamada "educação progressiva", baseada em Dewey, enfatiza a aprendizagem ativa, a interdisciplinaridade, a resolução de problemas, o trabalho em grupo e o protagonismo do aluno. 

   Muitos dos princípios defendidos por Dewey estão presentes em metodologias contemporâneas, como a aprendizagem baseada em projetos, a educação maker e o ensino por investigação.

  Apesar das críticas que recebeu — especialmente de setores mais conservadores da educação, que viam sua abordagem como permissiva demais —, Dewey deixou um legado sólido e duradouro. 

  Sua proposta de unir teoria e prática, pensamento e ação, escola e vida, continua a inspirar educadores que buscam tornar a educação mais significativa, humana e transformadora.

Conclusão

   John Dewey foi mais do que um teórico da educação: foi um visionário que acreditava no poder transformador do ensino. Sua filosofia educativa é, acima de tudo, um convite à reflexão sobre o papel da escola na formação de indivíduos autônomos, críticos e socialmente engajados. 

   Em um mundo que ainda enfrenta desafios educacionais profundos, as ideias de Dewey permanecem não apenas atuais, mas essenciais.

   Espero que tenha gostado do post de hoje. Abraços e até a próxima!😏


sábado, 30 de agosto de 2025

Tendências Pedagógicas E Seus Educadores: Escola Escolanovista

 


   A educação moderna deve muito ao movimento da Escola Nova, uma proposta pedagógica que surgiu no final do século XIX e ganhou força ao longo do século XX. 

  Em oposição ao modelo tradicional, baseado na memorização e disciplina rígida, a Escola Nova trouxe uma nova visão: a criança no centro do processo de aprendizagem.

 Mas o que exatamente é a escola escolanovista? Quais são seus princípios e como ela influenciou (e ainda influencia) a educação que temos hoje? Este artigo responde essas perguntas e mostra por que esse movimento foi uma das maiores revoluções educacionais da história.

O que é a Escola Nova?

   A Escola Nova, também conhecida como Escola Progressiva, foi um movimento internacional de renovação pedagógica que se desenvolveu como resposta às críticas ao modelo tradicional de ensino.

 Surgiu entre o final do século XIX e início do século XX, com pensadores e educadores preocupados com os rumos da educação frente às transformações sociais, econômicas e científicas da época.

 Entre os principais nomes ligados ao escolanovismo estão John Dewey (EUA), Ovide Decroly (Bélgica), Maria Montessori (Itália), Célestin Freinet (França) e, no Brasil, Anísio Teixeira, Lourenço Filho e Fernando de Azevedo.

Princípios da Escola Escolanovista

   O escolanovismo não é um método único, mas sim um conjunto de princípios e práticas pedagógicas baseadas em uma visão mais humanista, ativa e democrática da educação. Veja os principais pilares:

1. Educação centrada no aluno

   Ao contrário da escola tradicional, onde o professor é o centro do processo, a Escola Nova coloca o aluno como protagonista da própria aprendizagem. O ensino deve partir dos interesses, necessidades e experiências da criança.

2. Aprender fazendo

   Influenciada pelo pragmatismo de John Dewey, a Escola Nova valoriza a ação, a experiência e o fazer como caminhos para o conhecimento. O aprendizado não acontece apenas ouvindo, mas experimentando, investigando, criando e resolvendo problemas.

3. Interdisciplinaridade e integração com a vida

   Os conteúdos escolares devem estar ligados à realidade do aluno e não organizados de forma rígida e compartimentalizada. A aprendizagem precisa fazer sentido, estar conectada com o cotidiano e promover uma formação integral.

4. Ambiente democrático e participativo

   A escola escolanovista defende um ambiente de diálogo, cooperação e respeito mútuo entre alunos e professores. A disciplina é construída de forma participativa, e não imposta por autoridade.

5. Educação como processo contínuo

  A Escola Nova considera a educação um processo ao longo da vida. Não se trata apenas de preparar para o mercado de trabalho, mas de formar cidadãos críticos, autônomos e éticos.

Escola Nova no Brasil

   No Brasil, o escolanovismo chegou com força nas décadas de 1920 e 1930, influenciado pelos ideais da renovação educacional na Europa e nos Estados Unidos. Foi um período de intensa reforma educacional, especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

  Anísio Teixeira foi uma das figuras mais importantes desse movimento no país. Para ele, a educação deveria ser pública, laica, gratuita, obrigatória e democrática. Teixeira acreditava que a escola precisava estar alinhada com os princípios de uma sociedade moderna, plural e em desenvolvimento.

  A chamada “Escola Nova brasileira” propunha uma educação que respeitasse o desenvolvimento da criança, que promovesse o trabalho em grupo, a observação direta, a pesquisa e o uso de projetos. 

  Em 1932, foi publicado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, um documento histórico que consolidou os ideais do movimento e exigia uma profunda reforma educacional no país.

Legado e críticas

   A Escola Nova deixou um legado profundo na educação contemporânea. Muitas das práticas hoje consideradas “modernas” — como o trabalho por projetos, a valorização do aluno como sujeito ativo e a interdisciplinaridade — têm suas raízes no escolanovismo.

   Por outro lado, o movimento também recebeu críticas. Alguns apontam que a Escola Nova, ao valorizar excessivamente a liberdade e a espontaneidade, acabou negligenciando o papel estruturador do professor e do conteúdo.

   Outros críticos dizem que, na prática, as ideias escolanovistas nunca se consolidaram totalmente no sistema público de ensino, sendo muitas vezes apropriadas de forma superficial ou elitista.

Escola Nova hoje

   Mesmo com avanços e desafios, os princípios da Escola Nova continuam atuais. Em tempos em que se discute educação integral, metodologias ativas e competências socioemocionais, os ecos do escolanovismo são evidentes.

  Repensar o papel da escola, tornar o ensino mais significativo e formar sujeitos críticos são metas ainda em construção. A Escola Nova nos lembra que ensinar não é apenas transmitir conteúdo, mas formar seres humanos capazes de pensar, sentir, escolher e transformar a realidade em que vivem.

   Espero que tenha gostado do nosso estudo de hoje. Abraços e até a próxima!😉


sábado, 23 de agosto de 2025

Tendências Pedagógicas E Seus Educadores: Friedrich Froebel

 


   Friedrich Froebel (1782–1852) foi um pedagogo alemão cuja visão transformadora sobre a infância e o aprendizado mudou para sempre a forma como entendemos a educação dos primeiros anos de vida.

 Criador do conceito de “jardim de infância” (Kindergarten, em alemão), Froebel acreditava que a infância era uma fase única e fundamental no desenvolvimento humano — algo revolucionário para sua época.

A infância como fase sagrada

   No século XIX, quando Froebel começou a desenvolver suas ideias, a infância era muitas vezes negligenciada em termos de educação. As crianças eram vistas como pequenos adultos, e o ensino, quando ocorria, era rígido e voltado quase exclusivamente à memorização.

   Froebel desafiou essa lógica ao afirmar que a criança nasce com capacidades inatas que precisam ser cultivadas com cuidado, como uma planta em um jardim — daí a origem do termo "jardim de infância".

  Para Froebel, a educação não deveria ser algo imposto de fora para dentro, mas sim um processo que brota naturalmente da curiosidade e da criatividade da criança. Ele via o aprendizado como um ato de autoexpressão e autodescoberta, mediado por experiências concretas, simbólicas e lúdicas.

O papel do brincar no aprendizado

  Uma das maiores contribuições de Froebel foi reconhecer o brincar como elemento central no desenvolvimento infantil. Enquanto muitos de seus contemporâneos viam o brincar como perda de tempo, Froebel o considerava essencial para o aprendizado.

  Ele desenvolveu uma série de materiais pedagógicos chamados de “dons” (Gifts), que consistiam em blocos, bolas, formas geométricas e outros objetos pensados para estimular a percepção, a coordenação e a criatividade.

  Esses materiais não tinham o objetivo de ensinar conteúdos específicos, mas sim de ajudar a criança a explorar o mundo ao seu redor de maneira ativa e significativa. 

 Froebel entendia que, por meio do jogo simbólico, da manipulação e da experimentação, a criança construía seu próprio conhecimento, num processo muito próximo ao que mais tarde seria conhecido como construtivismo.

O jardim de infância

   Em 1837, Froebel fundou o primeiro jardim de infância na cidade de Bad Blankenburg, na Alemanha. A proposta era clara: oferecer um espaço onde as crianças pudessem se desenvolver em harmonia com sua natureza, por meio da música, do movimento, do contato com a natureza e do brincar livre. 

 Ali, as crianças não eram apenas cuidadas, mas educadas em seu sentido mais pleno — estimuladas a observar, perguntar, criar e conviver.

 Esse modelo logo se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos, sendo adotado por educadores como uma alternativa humanizadora à educação tradicional. No Brasil, as ideias de Froebel influenciaram importantes pensadores como Anísio Teixeira e os movimentos da Escola Nova no século XX.

Legado e influência

  A pedagogia de Froebel continua viva até hoje em escolas, centros de educação infantil e universidades. Suas ideias ecoam nos métodos Montessori, Waldorf e Reggio Emilia, todos eles baseados em uma abordagem mais respeitosa e centrada na criança.

  Mais do que um teórico, Froebel foi um visionário que reconheceu o valor da infância como tempo de descoberta, imaginação e construção de sentido. 

 Em tempos em que ainda se discute o papel da escola e a importância da educação infantil, revisitar suas ideias é um convite a repensar práticas educativas e a colocar a criança no centro do processo.

 Espero que tenha gostado do nosso estudo de hoje. Abraços e até a próxima!😉


terça-feira, 12 de agosto de 2025

Jean-Jacques Rousseau: O Educador que Revolucionou o Pensamento sobre a Infância e a Educação

 


  Rousseau nasceu em Genebra (Suíça), em 1712, e morreu em 1778, na França. Foi um marco na história do pensamento pedagógico, uma vez que, através de suas obras, inaugurou uma nova forma de pensar a educação de crianças.

  Foi filósofo, escritor e educador que teve um papel fundamental na transformação da maneira como enxergamos a infância e a educação.

  Rousseau resgata, primordialmente, a relação entre Educação e Política. Centraliza, pela primeira vez, o tema da infância na Educação.

A infância como uma fase especial da vida

   Antes de Rousseau, a infância era muitas vezes vista apenas como uma preparação para a vida adulta. Crianças eram tratadas como pequenos adultos e suas particularidades pouco eram levadas em conta.

  Rousseau foi um dos primeiros pensadores a afirmar que a infância tem valor em si mesma. Para ele, cada etapa da vida tem suas próprias características, e é papel da educação respeitar isso.

 Essa visão pode parecer óbvia hoje, mas no século XVIII era profundamente inovadora. Rousseau acreditava que a criança nasce boa por natureza, mas é corrompida pela sociedade. 

 Por isso, a educação ideal deveria proteger a criança das más influências externas, permitindo que ela se desenvolvesse de forma natural e livre.

 Rousseau considerava a criança como um ser diferente do adulto, com características e necessidades próprias da idade na qual se encontra. Para ele, a criança não é mais um adulto em miniatura, como se pensava séculos antes.

 Segundo o filósofo, a criança nasce boa e, o adulto, com sua falsa compreensão da vida e já imerso em uma sociedade de vícios, seria o responsável por pervertê-la. 

 Rousseau era adepto da ideia de que os “pequenos” deveriam viver por mais tempo possível em seu estado “natural” de inocência, dando à infância um valor próprio, pois, até então, esse período era considerado uma preparação para a vida adulta.

 Neste sentido, baseado na teoria da bondade natural do homem, Rousseau sustentava que só os institutos e interesses naturais deveriam direcionar a educação.

O livro Emílio e sua proposta pedagógica

    Sua obra mais conhecida nesse campo, Emílio, ou Da Educação (1762), é considerada uma das mais influentes da história da pedagogia. Nele, Rousseau propõe uma nova forma de educar: centrada na natureza da criança, respeitando seu tempo de desenvolvimento e suas necessidades.

   No livro Emílio, Rousseau narra a educação fictícia de um menino, desde o nascimento até a vida adulta. Ele descreve como seria uma formação ideal que respeitasse a natureza da criança em cada fase do desenvolvimento.

Entre os principais princípios da pedagogia de Rousseau estão:

  • Educação pela experiência: O educador deve permitir que a criança aprenda por meio da vivência, do contato com o mundo e da experimentação, e não apenas por meio de livros e discursos.

  • Respeito ao tempo da criança: Cada fase do desenvolvimento deve ser respeitada. Por exemplo, na primeira infância, a prioridade é o desenvolvimento físico e sensorial, e não o ensino formal.

  • Liberdade com responsabilidade: Rousseau defende que a criança precisa ter liberdade para explorar e agir, mas dentro de limites que ela mesma vá compreendendo com o tempo.

  • Educação moral e não repressiva: A moralidade, para Rousseau, não deve ser imposta com punições, mas construída gradualmente por meio da vivência de consequências naturais das ações.

Influência e críticas

   A visão de Rousseau teve impacto profundo na educação moderna. Seu pensamento influenciou educadores como Pestalozzi, Montessori, Piaget e muitos outros. A ideia de que a escola deve respeitar o ritmo da criança e promover um aprendizado ativo está presente em muitas práticas pedagógicas até hoje.

   No entanto, Rousseau também foi alvo de críticas. Muitos apontam que sua proposta, embora poética e idealista, é difícil de aplicar em larga escala. 

  Outros questionam sua própria prática como pai — apesar de ter escrito sobre a importância da educação, Rousseau entregou seus cinco filhos recém-nascidos a um orfanato, o que gerou polêmica e contradição com seus escritos.

Legado

   Apesar das críticas, é inegável a importância de Jean-Jacques Rousseau para a educação. Ele foi pioneiro em reconhecer a infância como uma fase única e digna de atenção, e trouxe à tona debates fundamentais sobre liberdade, natureza e sociedade.

  Se hoje falamos sobre ensino humanizado, metodologias ativas, respeito ao tempo da criança e aprendizagem significativa, muito disso tem raízes nas ideias plantadas por Rousseau há mais de dois séculos. 

  Seu legado segue vivo, lembrando-nos de que educar é, antes de tudo, compreender a natureza humana e cultivar com cuidado o potencial de cada ser.

  Espero que você tenha gostado do nosso estudo de hoje. Abraços e até a próxima!😉

 


sábado, 2 de agosto de 2025

Tendências Pedagógicas E Seus Educadores Nos Diversos Contextos Históricos

 


   Neste post vamos estudar as concepções e práticas desenvolvidas na Educação Infantil. Aqui nós iremos ver que, há muito tempo, a educação das crianças pequenas vem sendo uma preocupação de alguns educadores. E muito do que fazemos e pensamos a respeito da Educação Infantil tem sua origem nas ideias e práticas elaboradas por esses educadores.

  Toda prática está sempre associada a ideias que justificam nossas escolhas. As práticas pedagógicas estão relacionadas às nossas ideias sobre o que é educação, para que educar, a quem educar, por que educar e como educar.

  Nosso estudo nos permitirá compreender por que as práticas educacionais desenvolvidas nas creches, pré-escolas e escolas que têm turmas de Educação Infantil nem sempre se organizam da mesma forma.

Aula 1 – As pedagogias iluminista e escolanovista: tendências pedagógicas e seus educadores nos diversos contextos históricos

   Objetivo a ser alcançado nesta seção:

- Conhecer os aspectos filosóficos, históricos e didáticos das tendências pedagógicas da educação para a infância nas perspectivas iluminista e escolanovista, destacando alguns educadores, como Rousseau, Fröebel, Decroly e Montessori.

   Vamos começar a nossa conversa discutindo o termo pedagogia. Segundo o Novo Dicionário Aurélio, pedagogia é:

1. Teoria e ciência da educação e do ensino.

2. Conjunto de doutrinas, princípios e métodos de educação e instrução que tendem a um objetivo prático.

3. Profissão ou prática de ensinar.

   A partir dessa definição, podemos dizer que pedagogia é um conjunto de conhecimentos e práticas relacionados à tarefa de educar. Entretanto, observamos que esses conhecimentos e práticas nem sempre são os mesmos, variando ao longo do tempo ou do lugar.

   Você se lembra que no Módulo I estudamos a história do atendimento à criança pequena, e analisamos o processo de profissionalização docente? 

   Naquele estudo, tivemos a oportunidade de ver que o atendimento à criança foi determinado pelos interesses e necessidades de cada época e lugar, que determinam também o perfil do profissional esperado para atuar na educação.

   Dessa forma, cada tipo de atendimento, ou perfil profissional, está relacionado ao que chamamos tendência ou modelo pedagógico, que nada mais é do que o conjunto de ideias e práticas organizadas em cada época ou por um determinado grupo de educadores.

   Recentemente, a partir da LDB de 1996, a Educação Infantil passou a fazer parte de nosso sistema de ensino, mas o atendimento à criança pequena é anterior a isso. Na verdade, a ideia de educar crianças desde muito cedo, existe há alguns séculos!

  Há mais de duzentos anos que alguns educadores vêm pensando na importância de se promover a educação da criança.

  A primeira iniciativa de atendimento à criança de que se tem notícia é a do pastor protestante Jean Fredéric Oberlin, no ano de 1771, na França. Oberlin criou uma creche para acolher as crianças enquanto suas mães estivessem trabalhando.

  Alguns anos mais tarde, em 1816, na Escócia, um industrial abriu junto à sua fábrica têxtil um instituto para formação dos filhos de seus operários, que atendia a crianças pequenas. 

  Também há registro de instituições que atendiam crianças, neste mesmo período, em outros países da Europa, entre eles, Itália e Bélgica. Essas instituições atendiam especialmente crianças pobres e filhas de mães trabalhadoras.

 Por que será que na mesma época várias pessoas, intelectuais e pensadores de diferentes lugares começaram a se preocupar com as crianças?  Nessa época, fim da chamada Era Moderna, ocorreu uma série de transformações na sociedade, particularmente, na sociedade europeia. 

 Foi quando houve a transição do feudalismo para o capitalismo, a liberação da mão-de-obra, o aperfeiçoamento das técnicas de produção e a ampliação dos mercados.

 Embora o mundo ainda fosse essencialmente agrário, como no período feudal, no final do século XVIII, observamos o crescimento da produção, do comércio e da racionalidade econômica e científica.

  Havia uma classe economicamente em ascensão formada pelos “círculos mercantis e os financistas e proprietários economicamente iluminados, os administradores sociais e econômicos de espírito científico, a classe média instruída, os fabricantes e empresários”. Essa classe média foi chamada de burguesia.

  As mudanças que ocorreram em meados do século XVIII e começo do século XIX na organização da sociedade e no modo de produção, também se deram no plano das ideias o que acarretou a organização de uma nova tendência do pensamento chamada Iluminismo ou “Filosofia da Ilustração”. 

 Nesse período, enfatizavam-se os poderes da razão, também chamada “as Luzes“ (por isso, o nome Iluminismo). Em síntese, o Iluminismo afirmava que era a “Época das Luzes”. 

 Os temas discutidos giravam em torno da liberdade, do progresso e do homem. A ideia do universo em movimento, apresentada pelos racionalistas do século XVII, favorecia essas discussões.

  Tudo era agora compreendido como mutável. Mas a mudança seria sempre para melhor, daí a ideia do progresso. Era natural, e por trás disso estava a burguesia, que tinha tudo para se sentir otimista.

  Os filósofos atacavam duramente as instituições do Antigo Regime. E era o que ela precisava – uma justificação para o assalto ao poder, e o Iluminismo veio preparar o clima revolucionário. 

  A ideia de que pelo conhecimento se alcança a liberdade, a felicidade e o progresso afirmava a necessidade de promover a difusão do conhecimento para todos através da educação. Era preciso educar o novo homem, o novo cidadão.

  Uma educação não por meio de dogmas, como a Igreja até então havia imposto, mas uma educação pelo conhecimento das ciências e das artes. 

  O que se assistiu nesse período foi, por um lado, a afirmação da escola como espaço de socialização do cidadão e, por outro, a necessidade de abrigar os filhos das mães trabalhadoras, uma vez que os espaços de trabalho foram separados dos espaços domésticos. 

Isso porque, a partir de então, os trabalhadores precisaram se deslocar de seu lugar de moradia, no qual também desempenhavam seus ofícios, para serem inseridos em outros espaços determinados para o exercício de seu trabalho.

  A migração da população do campo para a cidade e o deslocamento da atividade produtiva para as fábricas fez com que os adultos e mesmo as crianças mais velhas saíssem para trabalhar, passando a ser responsabilidade exclusiva das mães o cuidado das crianças pequenas.

  Por outro lado, as condições de miséria do povo e o crescimento da produção industrial levaram muitas mulheres para o mercado de trabalho.

  Dessa forma, a criação de locais para abrigar as crianças pequenas das classes populares foi tornando-se uma exigência. A educação das classes populares e a instrução e formação sistemática das crianças em escolas fez parte das medidas dos governos marcadamente europeus.

 A educação tornou-se questão social. Os filhos de trabalhadores precisavam ter uma instrução sistemática a fim de que pudessem ser educados para a transformação social, objetivando a modernização dos Estados. 

  Afinal, se a criança era um ser tão maleável, como diziam os moralistas do século XVI, ela seria o veículo apropriado de transmissão dos saberes dominantes às gerações futuras. Foi com a obrigatoriedade da escolarização que o sentimento de infância se constituiu para as classes pobres.

A Pedagogia Iluminista

  Como vimos, no período iluminista assistimos à afirmação da necessidade de criação de espaços educativos para que fossem transmitidos os conhecimentos essenciais para a formação deste novo homem – racional, com conhecimentos científicos que se contrapusessem aos saberes do senso comum, superstições e dogmas religiosos que caracterizavam o período anterior.

  “Dizia-se então que era chegado o momento de “iluminar” as amplas camadas da população, ou seja, esclarecê-las. Esta seria a principal condição para uma sociedade melhor. 

  Entre o povo, porém, imperavam a incerteza e a superstição. Por isso, dedicou-se especial atenção à educação. Não é por acaso que a Pedagogia, como ciência, foi fundada na época do Iluminismo.” 

 Assim, a Pedagogia Iluminista, que foi desenvolvida durante o século XVIII, visava libertar o pensamento de saberes que pudessem obscurecer a razão individual e os princípios de liberdade, os quais já estariam contidos em uma natureza humana.

“A educação não deveria apenas instruir, mas permitir que a natureza desabrochasse na criança, não deveria reprimir ou modelar.” 

A Revolução Francesa foi um acontecimento marcante naquele período, pois representou a emergência de um novo ideal de sociedade e de novas concepções de educação e de homem.

Esse movimento baseou-se nas exigências populares por um sistema educacional que atingisse toda a sociedade, das mulheres que buscavam direitos iguais aos dos homens e dos intelectuais por uma sociedade na qual imperasse a razão, o conhecimento científico verdadeiro e os princípios de liberdade e igualdade.

“O século XVIII é político-pedagógico por excelência”

- Camadas populares reivindicavam mais saber e educação pública.

- Primeira vez que um Estado instituiu a obrigatoriedade escolar .

- A educação pretendia ser laica e gratuita para todos.

- A educação passou a visar à formação de cidadãos partícipes de uma nova sociedade liberal e democrática.

- A burguesia precisava de trabalhadores com instrução mínima, orientando uma educação para a formação do cidadão disciplinado.

   Vale lembrar, contudo, que a educação proposta não era exatamente a mesma para todos, pois admitia-se a desigualdade natural entre os homens.

   Essa visão de que todos temos dentro de nós uma semente que precisa ser regada, ainda é bastante forte em nossa sociedade e é compartilhada por profissionais de várias áreas, por exemplo, psicólogos e professores.

   Para os filósofos do Iluminismo, a natureza era quase a mesma coisa que razão. Isso porque a razão era considerada uma dádiva da natureza ao homem. Buscar um ideal de homem, puro e sem as deformações da civilização, era o objetivo maior desta corrente de pensamento filosófico.

  Sobre este ponto, destacamos o filósofo Rousseau e a ideia de natureza humana como essência para pensarmos como o sujeito aprende e como deve ser educado, assunto para nosso próximo post.

Espero que tenha gostado do post de hoje. Abraços e até a próxima!😉

Fonte: COLEÇÃO PROINFANTIL - MÓDULO III - unidade 3 . Livro de estudo - vol. 2

domingo, 27 de julho de 2025

Organização Do Trabalho Pedagógico: A Construção Da Identidade Pela Criança

 


   A construção da identidade infantil é um processo dinâmico e multifacetado, que envolve não apenas a percepção interna do corpo e do eu, mas também as interações com o ambiente, com a família, a escola e, mais amplamente, com a cultura em que a criança está inserida. 

  Este processo é fundamental para a formação da autoimagem e da maneira como a criança se percebe e é percebida pelos outros. 

  Neste post, exploraremos alguns aspectos-chave dessa construção, como a formação da autoimagem, o controle de esfíncteres, as mordidas, o uso de palavrões e o exibicionismo, sempre dentro da perspectiva das relações sociais e culturais.

A Formação da Autoimagem

   A autoimagem é a percepção que a criança tem de si mesma, e ela começa a se formar desde os primeiros anos de vida. O reconhecimento do corpo, suas capacidades e limitações, e a maneira como ela é tratada por adultos e outros indivíduos ao seu redor influenciam diretamente a construção dessa autoimagem. 

   Desde os primeiros meses, o bebê começa a perceber seu reflexo no espelho e, aos poucos, entende que aquele reflexo é ele mesmo. Esse processo é um marco importante para o início da construção de uma identidade autônoma, que será desenvolvida e moldada ao longo de sua vida.

   O olhar do outro também desempenha um papel central nesse processo. A interação com os pais e com outras figuras de autoridade ajuda a criança a entender como é vista pelos outros e como ela deve se comportar para ser aceita socialmente. 

  A criança aprende, assim, que sua identidade não é formada apenas pelo que ela sente, mas também pelo que os outros percebem dela.

O Controle de Esfíncteres

   Um dos marcos significativos no desenvolvimento da identidade de uma criança é o controle dos esfíncteres, que ocorre, geralmente, entre os 2 e 3 anos de idade. 

  Este é um momento em que a criança começa a adquirir o controle sobre suas necessidades fisiológicas, como urinar e defecar, e isso tem implicações profundas na sua autoimagem.

   O processo de controle de esfíncteres não se dá de forma isolada; ele está intimamente ligado à relação da criança com os outros. As expectativas culturais e familiares sobre esse comportamento influenciam diretamente o modo como a criança se percebe nesse estágio. 

   Uma criança que é elogiada e valorizada por seus avanços nesse controle pode desenvolver um senso de competência e autonomia. Por outro lado, punições e críticas podem levar a sentimentos de vergonha ou frustração.

Mordidas entre Crianças

  As mordidas são comportamentos típicos da infância, especialmente durante a fase de desenvolvimento emocional e social que ocorre entre 1 e 3 anos. 

    Embora possam ser interpretadas como atos agressivos, as mordidas muitas vezes refletem a tentativa da criança de expressar emoções que ainda não consegue verbalizar adequadamente, como frustração, raiva ou ciúmes. 

   Esse comportamento é uma forma primitiva de comunicação e é comum em ambientes de interação social, como nas escolas e nos parques.

  A mordida, portanto, está diretamente relacionada à construção da identidade, pois a criança está lidando com suas emoções e tentando entender os limites e normas sociais. 

  A maneira como os adultos reagem a esse comportamento — se com compreensão ou punição — pode influenciar a forma como a criança percebe a si mesma e como ela se encaixa nas normas sociais do grupo.

O Uso de Palavrões

  Outro aspecto relevante na construção da identidade infantil é o uso de palavrões. Embora muitas vezes os palavrões sejam vistos como uma forma de transgressão, eles fazem parte do processo de aprendizagem da linguagem e da negociação do que é socialmente aceitável. 

  As crianças começam a usar palavras "proibidas" quando percebem que elas causam uma reação nos outros, seja de surpresa, indignação ou riso.

 O uso de palavrões pode ser interpretado como uma tentativa da criança de testar limites e de experimentar seu poder sobre os outros, ao mesmo tempo em que se insere no mundo simbólico da cultura. 

  Ao reagirem a esse comportamento, os adultos oferecem à criança uma forma de aprendizado sobre as normas culturais e sociais que regem a comunicação e o respeito.

Exibicionismo

   O exibicionismo infantil, ou a necessidade de mostrar o corpo, é outro comportamento que surge em alguns estágios da infância, especialmente na fase do desenvolvimento psicomotor.

   Nesse momento, a criança ainda está descobrindo o seu corpo e sua relação com ele e com os outros. O exibicionismo, nesse contexto, é muitas vezes uma forma de chamar a atenção e obter reconhecimento dos adultos ou dos pares.

  Como no caso dos palavrões, o exibicionismo também está relacionado à experimentação de limites. A maneira como os adultos respondem a esse comportamento pode influenciar diretamente a percepção da criança sobre seu próprio corpo e sobre o que é apropriado ou não na cultura em que vive.

A Relação com os Outros e a Cultura

   Todos esses comportamentos — controle de esfíncteres, mordidas, palavrões e exibicionismo — estão interligados pela interação da criança com os outros. A forma como ela é tratada e o feedback que recebe das figuras de autoridade, como pais, professores e colegas, são cruciais para a formação de sua identidade. 

  Além disso, a cultura concreta em que a criança está inserida — com suas normas, tabus e valores — também exerce grande influência sobre o modo como a criança se comporta e entende a si mesma.

 Por fim, a construção da identidade infantil é um processo contínuo, que vai além dos aspectos psicológicos e físicos, envolvendo a relação com o outro e com o mundo social e cultural ao redor.

 O papel dos adultos é fundamental nesse processo, pois são eles que, muitas vezes, fornecem os primeiros modelos de comportamento, criando um ambiente seguro para que a criança possa explorar, aprender e, ao mesmo tempo, construir uma identidade sólida e autêntica.

 Espero que tenha gostado do nosso estudo de hoje. Abraços e até a próxima!😉


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